terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Baita Besteira Brasil ( BBB )


Diz a lenda que Rui Barbosa, ao chegar em casa, ouviu um barulho estranho vindo do seu quintal. Chegando lá, constatou haver um ladrão tentando levar seus patos de criação.
Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o, quando este tentava pular o muro com os patos, disse-lhe:
- Oh, bucéfalo anácrono! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas, sim, pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa.
Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada prosopopéia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei, com minha bengala fosfórica, bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o vulgo denomina nada.
E o ladrão, confuso, diz:
- Dotô, resumino: eu levo ô dexo os pato?
Fiquei pensando, cá comigo: o que diria Rui Barbosa a respeito do BBB, Baita Besteira Brasil, que está hoje a começar? "Levo ô dexo os pato?"... Quanta ignorância ajuntada pugnando pelo vil metal, e o povo se obrigando a assistir. "É triste, mas é verdade", como se diz por aí.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Tá quente!


A cada verão, dá realmente a impressão de que o calor está cada vez maior. Em Indaial, então, a sensação térmica é bem mais importante do que o número que os termômetros marcam. Porque, afinal, o que vale mesmo é o que a gente sente. E a umidade no ar por aqui tem quase sempre a tendência de ser alta, o que influencia a sensação térmica.
O negócio funciona assim, e nem é muito confuso:
Na maior parte dos dias, a temperatura do termômetro representa o calor ou frio que sentimos. No entanto, sabemos que em dia em que a umidade, que está no ar em estado de vapor, é alta, o calor que sentimos é maior do que o termômetro indica. Por que? A umidade elevada no ar “tapa” os poros superficiais da pele que ajudam na transpiração, que por sua vez regula a nossa temperatura interna com a externa. Com esses poros “tapados”, não transpiramos direito e sentimos o abafamento, portanto maior calor.
Na verdade, o ser humano é influenciado por todas as variáveis do tempo, seja temperatura, vento, umidade, radiação solar, pressão do ar e etc. O calor e frio vem, em casos especiais, não só da temperatura variável, mas da união com outras variáveis como a umidade no caso do calor. Sensação térmica não é medida e sim estimada por tabelas elaboradas através de pesquisas meteorológicas.
Exenplo: se em Indaial a temperatura é 38ºC com umidade alta que faz a sensação de calor chegar a 42ºC, a nossa população está sentindo mais calor que a de Florianópolis, por exemplo, onde a temperatura poderia ser até de 39ºC, mas com umidade baixa.
Para entender melhor:
Florianópolis
Termômetro: 31ºC
Umidade: 30%
Sensação de calor: 31ºC (BAIXA UMIDADE – SENSAÇÃO IGUAL AO TERMÔMETRO)
Indaial
Termômetro: 31ºC
Umidade: 80%
Sensação de calor: 40ºC (UMIDADE ALTA – SENSAÇÃO MAIOR QUE O TERMÔMETRO)
É por essas e outras coisas que no verão o pessoal esvazia Indaial, todos em direção às nossas lindas praias. E tem justificativa, pois já tivemos 46ºC de sensação térmica neste verão quente de 2010. Tem gente com saudades do inverno...

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Proveitoso 2010

Meus desejos são para que você, a partir desse primeiro dia do ano,
siga o caminho da evolução, chegado apenas até a figura central do desenho
(e de preferência sem empunhar armas).
Tenha força de vontade e discernimento para não atingir o último dia de 2010
na condição das últimas figuras à direita.
Pela sua saúde, pelo seu bem, e pelo bem da estética...
Feliz Ano Novo!

domingo, 27 de dezembro de 2009

Piranhas


Até há pouco mais de dois meses, eu nunca tinha ouvido falar de Piranhas, e nem sabia que existia. No entanto, acabo de conhecer uma pequena cidade no interior de Alagoas que teve um papel histórico na epopéia do cangaço. Hoje está bem conservada, com muitos prédios, praças e monumentos restaurados, contando inclusive com um ótimo museu. Piranhas é um município que fica localizado no oeste de Alagoas. Sua população é de 21.716 habitantes e sua área é de 409,1 km² (53,23 h/km²).
Piranhas ficou nacionalmente conhecida por ser a cidade onde a cabeça de Lampião, e outros do seu bando, ficaram expostos após decapitação. Em Piranhas também foi rodado o filme Baile Perfumado, com o mesmo tema do Cangaço. No museu da cidade podem ser vistas várias fotos do bandido Lampião. Inclusive a famosa foto que mostra o empilhamento das cabeças na escadaria da prefeitura do município. Neste mesmo museu trabalha hoje, como auxiliar, um dos policiais que, na época, mataram Lampião e seu bando.
O município é banhado pelo majestoso rio São Francisco. Piranhas foi reconhecida como patrimônio histórico nacional, pelo IPHAN. Dentre as festas que mais se destacam na cidade estão o carnaval, que se realiza no centro histórico. O forrogaço no bairro Xingó, que se realiza no início de junho, comemorando o aniversário da cidade e antecipação das festas juninas.
Cidade razoavelmente calma, com bom desempenho turístico, mas com uma economia muito fraca e totalmente dependente do recebimento de royalties, provenientes da Chesf (Companhia Hidrelétrica do São Francisco).
Sendo o Brasil um país de dimensões continentais, as distâncias que separam as pessoas e os lugares certamente são impecilhos para que se tome conhecimento de tantas riquezas naturais, históricas e geográficas. Mesmo assim, se alguém se aventurar pelas caatingas nordestinas, vale a pena conhecer Piranhas, uma cidadezinha interiorana com um povo muito receptivo que vai deixar saudade.
A foto foi feita num momento de por-do-sol a partir de um restaurante no alto de um morro.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

A morte de Lampião



Por ocasião da visita ao local onde foi morto Lampião (post de 20 de novembro), decidi pesquisar um pouco mais sobre a vida desse cangaceiro, principalmente a situação do seu desaparecimento e a forma como isso ocorreu. A seguir, um resumo.
No dia 27 de julho de 1938, o bando de Lampião acampou na fazenda Angicos, situada no sertão de Sergipe, esconderijo tido por Lampião como o de maior segurança. Era noite, chovia muito e todos dormiam em suas barracas. Por volta das 05:15 horas do dia 28, os cangaceiros levantaram para rezar o oficio e se preparavam para tomar café, quando um cangaceiro deu o alarme, já era tarde demais.
Não se sabe ao certo quem os traiu. Entretanto, naquele lugar mais seguro, segundo a opinião de Virgulino, o bando foi pego totalmente desprevenido. Quando os policiais do Tenente João Bezerra e do Sargento Aniceto Rodrigues da Silva, abriram fogo com metralhadoras portáteis, os cangaceiros não puderam empreender qualquer tentativa viável de defesa.
O ataque durou uns vinte minutos e poucos conseguiram escapar ao cerco e à morte. Dos trinta e quatro cangaceiros presentes, onze morreram ali mesmo. Lampião foi um dos primeiros a morrer. Logo em seguida, Maria Bonita foi gravemente ferida. Alguns cangaceiros, transtornados pela morte inesperada do seu líder, conseguiram escapar. Bastante eufóricos com a vitória, os policiais apreenderam os bens e mutilaram os mortos. Apreenderam todo o dinheiro, o ouro e as joias.
A força volante, de maneira bastante desumana para os dias de hoje, mas seguindo o costume da época, decepa a cabeça de Lampião. Maria Bonita ainda estava viva, apesar de bastante ferida, quando sua cabeça foi degolada. O mesmo ocorreu com Quinta-Feira, Mergulhão (os dois tiveram suas cabeças arrancadas em vida), Luis Pedro, Elétrico, Enedina, Moeda, Alecrim, Colchete e Macela. Um dos policiais, demonstrando ódio a Lampião, desfere um golpe de coronha de fuzil na sua cabeça, deformando-a. Este detalhe contribuiu para difundir a lenda de que Lampião não havia sido morto, e escapara da emboscada, tal foi a modificação causada na fisionomia do cangaceiro.
Feito isso, salgaram as cabeças e as colocaram em latas de querosene, contendo aguardente e cal. Os corpos mutilados e ensangüentados foram deixados a céu aberto para servirem de alimento aos urubus. Para evitar a disseminação de doenças, dias depois foi colocado creolina sobre os corpos. Como alguns urubus morreram intoxicados por creolina, este fato ajudou a difundir a crença de que eles haviam sido envenenados antes do ataque, com alimentos entregues pelo coiteiro traidor.
Percorrendo os estados nordestinos, o coronel João Bezerra exibia as cabeças - já em adiantado estado de decomposição - por onde passava, atraindo uma multidão de pessoas. Primeiro, os troféus estiveram em Piranhas (cidade que conhecemos com detalhes na nossa viagem a Alagoas, e sobre a qual pretendo discorrer em outro post), onde foram arrumadas cuidadosamente na escadaria da igreja, junto com armas e apetrechos dos cangaceiros, e fotografadas. Depois Maceió e após, foram ao sul do Brasil.
No IML de Maceió, as cabeças foram medidas, pesadas, examinadas, pois os criminalistas achavam que um homem bom não viraria um cangaceiro: este deveria ter características sui generis. Ao contrário do que pensavam alguns, as cabeças não apresentaram qualquer sinal de degenerescência física, anomalias ou displasias, tendo sido classificados, pura e simplesmente, como normais.
Do sul do País, apesar de se encontrarem em péssimo estado de conservação, as cabeças seguiram para Salvador, onde permaneceram por seis anos na Faculdade de Odontologia da UFBA da Bahia. Lá, tornaram a ser medidas, pesadas e estudadas, na tentativa de se descobrir alguma patologia. Posteriormente, os restos mortais ficaram expostos no Museu Nina Rodrigues, em Salvador, por mais de três décadas.
Durante muito tempo, as famílias de Lampião, Corisco e Maria Bonita lutaram para dar um enterro digno aos seus parentes. O economista Silvio Bulhões, em especial, filho de Corisco e Dadá, empreendeu muitos esforços para dar um sepultamento aos restos mortais dos cangaceiros e parar, de vez por todas, essa macabra exibição pública.
O enterro dos restos mortais dos cangaceiros só ocorreu depois do projeto de lei nº2867, de 24 de maio de 1965. Tal projeto teve origem nos meios universitários de Brasília (em particular, nas conferências do poeta Euclides Formiga), e as pressões do povo brasileiro e do clero o reforçaram. As cabeças de Lampião e Maria Bonita foram sepultadas no dia 6 de fevereiro de 1969. Os demais integrantes do bando tiveram seu enterro uma semana depois. Assim, a era CANGAÇO se encerrou, com a Morte de Virgulino, o Lampião.